VAGALUMES DANÇANDO NO CÉU

Garoava de leve na manhã em que o pai de Clarice colocou as coisas no carro e a levou ao campo para ver luzes no céu.

— Lá não é lugar de criança — foi tudo o que a mãe disse.

Menos que um veto, era uma simples afirmação de autonomia. Não ganhava uma desde que o marido tinha passado a frequentar o grupo do Coronel Fleury. A prova disso era o silêncio cauteloso que sempre sucedia seus protestos. Clarice ensaiou chorar. O pai sequer mudou de expressão.

— Já tinha prometido que ela ia junto — falou apenas. Fechou o porta-malas e foi beijar a esposa em despedida.

Clarice gostava de ver os pais se beijando. Coisa rara, ver carinho entre adultos. Os amigos da escola duvidavam que gente grande pudesse se beijar e abraçar. Riam dela quando contava histórias assim. Por isso nem comentava daquela vez. Aquela em que viu os dois deitados se abraçando no escuro e ficou aliviada de saber que sua família era mais feliz que as outras.

Portanto estranhou que a mãe virasse o rosto ao marido. Mas o sorriso do pai, aquele que dissolvia qualquer tensão, a pôs tranquila. A mãe estava com inveja porque não podia ir. Partiram animados.

Clarice ia no banco da frente. Assistia maravilhada ao pai conduzindo pela estrada encoberta na neblina. Pés e mãos ágeis nos pedais e no trocador de marchas. O carro contornando suavemente as curvas perto dos barrancos. Outros veículos ficando para trás. Não tinha coisa no mundo que aquele homem fosse incapaz de fazer.

A viagem durou horas. Clarice caiu num sono leve, influenciado pelos barulhos abafados que vinham do exterior. Sonhou que a mãe se arrependia e se juntava a eles. Entravam todos num grande avião e viajavam no espaço sideral, visitando mundos rosados com paisagens inusitadas.

Acordou com solavancos fortíssimos. A rodovia tinha acabado. Ao redor tudo eram campos verdes e gado bovino abrigando-se da chuva sob as árvores. Era a primeira vez que via vacas de verdade. Achou engraçado que suas peles fossem tão brancas já que o couro era sempre escuro.

Chegaram à entrada de uma fazenda. Um rapazinho negro veio abrir a porteira. Clarice mudou para o banco de trás e ficou vendo o rapazinho correr atrás do carro até perdê-lo de vista.

Ao fim da estrada de barro tinha um casarão rodeado de carros. Lá dentro parecia uma festa. O pai de Clarice a pegou no colo e cumprimentou a todos. Havia outras crianças, todas mais velhas que ela. Entre os adultos, seu pai era o mais moço, exceto por uma jovem chamada Dolores, que era da idade da professora de Clarice e tinha um jeito diferente de falar.

— Hola, mi cariño — a moça disse. Pegou Clarice no colo com toda intimidade. Agia diferente de todo mundo ali. Era feliz e pura como as crianças. Clarice se apaixonou por ela.

Tiveram um almoço prolongado cheio de comidas esquisitas que Clarice nunca tinha provado. Não serviam carne, o que era bom. Era preciso que a mãe a cortasse em pedacinhos minúsculos para que Clarice não passasse mal. Naquele lugar, achava que o pai era outra pessoa. Em casa comia sempre demais e muito rápido. Gostava do filé malpassado. Ali era educado e parcimonioso. Explicava que comer carne seria prejudicial à experiência que iriam ter.

Coronel Fleury, dono da fazenda, narrava como as coisas seriam. Partiriam uma hora depois do almoço, depois seguiriam a pé por uma trilha até o posto de observação, onde montariam acampamento e esperariam o cair da noite. Clarice se interessou pelo homem. Era velho mas muito jovial e atlético. Falava com desenvoltura, marcando bem os erres. Seus modos eram dóceis porém firmes. Todos o respeitavam muito.

Saíram no horário marcado. A chuva já tinha passado, deixando para trás um céu plúmbeo e misterioso. Ventava, embora o ar estivesse quente. A longa caminhada piorava a sensação de abafamento. O pai de Clarice se ofereceu para carregar o peso de Dolores. Clarice ficou feliz em poder caminhar o resto da trilha de mãos dadas com uma moça tão bonita e gentil. O sol brilhava lá no alto sob o lençol de nuvens opacas. Com o vento soprava um cheiro de frescor, promessa e novidade.

Atingiram certo ponto onde seria necessário atravessar um riacho. Mesmo rasas, as águas corriam fortes. Clarice chorou de medo. Coronel Fleury foi mais à frente, tirou um espelhinho do bolso e o apontou ao sol. Minutos depois, dois homens surgiram a cavalo na outra margem. Tinham a pele muito escura e falavam baixo. Coronel Fleury foi o único a lhes dirigir palavra. Os homens desceram do cavalo para falar com ele. Obedeciam a todas as suas recomendações sem olhá-lo nos olhos.

Um a um, eles transportaram mulheres e crianças nos cavalos, puxando-os pelas rédeas. Canelas fincadas no rio. Alguns dos homens tentaram imitar o feito e se esborracharam vergonhosamente na água. Foi um deus-nos-acuda. Ao final, todos foram ajudados pelos dois homens.

À tardezinha, alcançaram uma clareira no alto de uma colina. Dali Clarice podia ver o mundo inteiro. Homens armavam as barracas enquanto mulheres preparavam ensopados em fogareiros improvisados. Dolores levantou a própria barraca e convidou Clarice para ouvir histórias. A menina não entendia nem metade das coisas que ela dizia, mas amava o som das palavras.

— Llamame Lola — ela pediu.

— Eu te adoro, Lola.

Mais tarde, Coronel Fleury reuniu o grupo numa grande roda. Todos sentados na grama, pernas cruzadas. Clarice imitou os adultos e também fechou os olhos. Ficou ouvindo os sons dos grilos e das folhas, perguntando a si mesma que hora aquilo iria acabar. Depois todos deram as mãos, fizeram orações e entoaram cânticos.

Quando acabou a cerimônia, Coronel Fleury limpou a garganta e falou em tom solene:

— Caros amigos, falta agora menos de uma hora para o nosso contato com o Comandante. Conforme me foi dado a intuir em sonho, a frota Ashtar se aproxima e logo seremos presenteados com a luz de sua presença…

— Papai, quem é o Comandante? — Clarice perguntou. — É o chefe do Coronel?

O pai riu-se.

A verdade é que Clarice não aguentou esperar e dormiu antes da hora. Das luzes prometidas, vislumbrou, já meio sonolenta, apenas pequenos pontos tímidos dançando no céu, que poderiam muito bem ter sido vagalumes. Acordou sabe-se lá quanto tempo depois, sozinha na barraca. Tudo estava escuro. Clarice se desesperou com a ausência do pai e saiu para procurá-lo.

Lá fora o céu resplandecia com um insondável número de astros. Um espetáculo totalmente novo para Clarice, mas que agora a apavorava. O negror daquela imensidão lembrava o oceano, em cujas profundezas adivinhavam-se temerosas criaturas desconhecidas.

Todas as barracas eram iguais. Clarice não sabia aonde ir procurar. Finalmente reconheceu a barraca de Lola. Pequena e mal montada, contrastava com o resto. Balançava-se. Lola devia estar acordada. Clarice correu naquela direção buscando alento na companhia da nova amiga. Por um instante achou ter visto a mãe abraçando o pai. Mas logo viu que estava enganada.

Separação

Uma vez, eu ainda era pequeno, mamãe me pôs de castigo durante um dia inteiro. Era domingo. No som ligou uma daquelas gravações em que uma voz etérea nos induz pensamentos de paz e tranquilidade, e me trancou ali no quarto sozinho. Sei lá o que estava passando na sua cabeça. Devia estar de saco cheio de lidar com a minha indisciplina, que sendo justo nem era tanta. Talvez apenas precisasse de um dia só para si. Admito que foi criativa a solução que arranjou. Mamãe era contra castigos físicos, que isso só trazia mau karma e ressentimento. Aceitei aquela pena desmedida sem fazer birra porque, perto das cintadas de quando papai morava com a gente, era até divertido.

Talvez já desconfiasse daquele seu esoterismo de butique. Cristais coloridos espalhados por toda a casa, defumações fedorentas pesando o ar. Incensos compondo uma atmosfera lúgubre junto àquelas músicas new age, tão bregas. Papos de vidas passadas e futuras, tarô de Jung. Coisas que ainda não significavam nada para mim, para ela serviam como um escapismo até justificável, hoje penso. Mesmo naquela idade não seria impossível associar os envelopes de bancos e credoras, entupindo nossa caixa de correio, com os livros que preenchiam a estante da sala. Livros e mais livros escritos por velhos barbudos, ditos desapegados de posses materiais, prometendo uma vida de abundância. Vibrações negativas, ela chamava. Um inimigo invisível, e por isso menos nocivo, que flutuava sobre nossas cabeças, exercendo sua má influência sobre os sonhos de uma mãe sozinha e quebrada que não tinha a quem mais culpar por seu infortúnio.

Me deixei conduzir pela sensualidade da voz gravada. A princípio era preciso algum esforço para seguir os comandos. Feche os olhos. Imagine um círculo luminoso. Uma luz branca que vai se aproximando. Aos poucos vai mudando de cor. Ora vermelha. Ora verde. Azul agora. Cada vez mais e mais perto. Todo o pensamento envolto nessa luz. Nada a não ser essa luz. Logo a mente vai ganhando certa inércia e a coisa se desenrola por si só. Os pensamentos se dissolvem. A voz desaparece. Mesmo o corpo, não se sabe onde foi parar. Tudo é calor e alegria. Um oceano morno, calmo, infinito. Útero materno.

Despertei do sonho com as sacudidas de mamãe várias horas depois. Mas o que vi ao abrir os olhos não foi seu rosto, senão o meu. Estava suspenso dois metros acima no ar encarando a mim mesmo na cama lá embaixo. O tipo de imagem que não se esquece facilmente: meu corpo ali largado, pesado sobre os lençóis, desprovido de substância, ainda que não inteiramente sem vida. Apenas um invólucro à parte de quem eu era. Uma visão não de todo nova. Da outra vez que tinha visto algo assim, não era porém meu corpo que jazia à minha frente. Igualmente incompreensível era a ausência contida na presença, tal qual eu via ali. Via também o alto da cabeça de mamãe, que agitava meu ser inerte. Havia desespero na sua veemência. Tirou meu pulso, aproximou o dedo do meu nariz para sentir minha respiração. Comecei mesmo a me perguntar se estava de fato vivo. Era pelo menos assim que ela descrevia o pós-vida — a alma se desprendendo da carne e seguindo seu rumo atrás de outras existências. Mamãe começou a chorar. Era raro vê-la assim, mesmo depois que papai se foi. Algo lá no fundo de mim cedeu. Meu eu levitante desabou sobre o eu desacordado. Éramos novamente um. Despertei, dessa vez para a vida corpórea. Mamãe em prantos sobre meu colo. Acarinhei seus cabelos que nem ela fazia para acalmar minhas aflições. Sentindo meu toque, levantou de um susto e me abraçou como há tempos não acontecia. Estava arrependida e me pedia desculpas. As coisas ficaram normais lá em casa depois disso.

Dias mais tarde ganhei coragem e lhe narrei a experiência mística que tinha vivido. Foi com surpresa que reagiu. Aquela fita nunca tinha funcionado com ela. Pensando bem, crianças eram realmente mais sujeitas à mediunidade. Ou poderia ter sido só um sonho, com o que acabei concordando. O assunto parecia encerrado. De noite, apesar de já estar grandinho, veio me botar para dormir. Antes de apagar a luz sentou ao pé da cama, a mesma cama onde tudo aconteceu. Ficou um momento calada, ganhando tempo. Parecia incapaz de dizer o que tinha para falar, e no entanto se demorava ali comigo. Estranho ver um adulto ocupar o lugar de vulnerabilidade que normalmente cabe às crianças. Me sentia grande e importante. Ao me beijar na testa finalmente perguntou se eu tinha conseguido ver papai. Não soube direito o que responder. Da última vez que o tinha visto ela também esteve presente. Lembrar daquilo tudo de novo me entristeceu. Choramos juntos pela primeira e última vez desde então. E nunca mais voltamos a tocar no assunto.

Elegia para o mês de agosto

Nesses últimos quinze anos
A seca em Brasília adquiriu para mim o significado de uma liturgia
Não sei se são as folhas mortas caídas
Amaciando nosso cansaço às sombras das árvores
Ou a floração dos ipês roxos amarelos brancos e rosas
Pavimentando apressadas idas e vindas
Tão ensimesmadas que por vezes nos surpreendemos quando alguém comenta:
— Você viu que lindos os ipês?
Ou se é o céu — esse céu sem igual
Que me bota o espírito num estado quase místico
Me conectando com os elementos naturais
E os bons ares que as estações vêm afirmar.

Esse céu — veja bem:

Sempre desdenhei de como o brasiliense insiste que o céu de Brasília é o mais bonito que há. A ausência nublar nas estiagens daqui é a mesma em toda a extensão do Cerrado. Morei em Mato Grosso do Sul. Viajei pelo interior do Goiás e por toda Minas Gerais. Vi invernos igualmente áridos. Assisti a natureza se acinzentar à medida que o céu se despia em tons cada vez mais puros do azul. Exatamente como acontece aqui. Quantas vezes mesmo não pensei que o céu de Campo Grande devia ser o mais bonito que existia. De modo que nunca tive paciência para esse saudosismo tolo brasiliense — mas

Nestes tempos encerrado aqui em casa
Vítima patética da minha própria nostalgia
Testemunha de como meu apartamento se apequena ao passo que a paisagem aparenta sempre maior lá do lado de fora
Finalmente começo a entender:
Não é o azul do céu que é belo
Nem a aridez da vegetação que o emoldura
Belo é o contraste
Entre as nossas existências cimentadas
Entre o concretismo absurdo das estruturas humanas — as físicas e as morais
E o viço de uma natureza que supera condições hostis
Uma natureza que rasga a cidade no âmago
E perfura a mesmice dos dias
Que penetra a identidade das pessoas que habitam este chão
E arma o sentido das vidas que se fazem aqui
Feitas de parar e olhar para o céu
E sentir que as exceções podem ser as regras
Que os dias passados sobre os gramados
As escapadas a córregos e cachoeiras
Os encontros furtivos nos cafés
Os abraços calorosos em tardes suadas
O colorido nos canteiros da cidade grisalha
São mais sinceros e mais verdadeiros que os sonhos abdicados
Que o cinismo medíocre
Que o pragmatismo
Que a burocracia
As aspirações pequeno-burguesas
E os nossos costumes provincianos.

A beleza disso tudo não é mais que a projeção dessa nossa esperança cansada
De que os dias valerão a pena ao menos uma vez por ano
Não na festividade do verão mas na morbidez do inverno
Na decadência do verde em marrom
No surgir dos amores novos superando os velhos
No filosofar pueril dos universitários em meio a baforadas de fumos de palha
Nos programas clandestinos a despeito de obrigações procrastinadas
Na falta de grana e de ambições
Na gratuidade dos nossos corpos nus
Na efervescência de humores em revolta
No moreno da pele
Nos suspiros ao lusco-fusco
Pensando que tudo pode estar ruim
Que as coisas podem nunca melhorar
Ou que talvez melhorem, quem sabe
Dia após dia, se tivermos paciência
Mas que não importa
De algum jeito misterioso não importa
Pois as coisas estão mudando a todo tempo e logo piorarão novamente
E apesar de tudo há um novo dia para se ver
E há araras-canindé
E há silêncio no cochicho das águas
E há todo um ser que lateja sob a epiderme
Há o entrar em termos com o suceder implacável das horas
Há o fechar os olhos
E deixar que o rio seque ou tome seu curso
Mesmo que os mosquitos venham e suguem todo o nosso sangue
Mesmo que os afetos ruam irreversivelmente
E as paredes colapsem sobre nossas cabeças
Que todos os nossos fantasmas nos assediem quando as luzes se apagarem
E ainda assim tentar e continuar tentando
Mil vezes
E dez mil vezes mais.

— E por quê?
Porque o céu é azul?
Porque as flores são roxas amarelas brancas e rosas?
Ou porque o coração parece que vai explodir quando os sentimentos são ao mesmo tempo tão profundos e tão mudos?
Porque eu sou tão brasiliense como qualquer outro
E as coisas foram de um jeito hoje mas seriam de outra forma completamente diferente sob outras circunstâncias?
Porque nada é senão acaso
E somos nada senão poeira
Substrato inteligente e sofredor deste mesmo solo
Soprado ao sabor desse ar pesado e áspero
Que carrega as folhas mortas das calçadas
Somente pare que voltem a entupir os bueiros quando vierem as chuvas ao fim de outro outubro?

Nem sei mais aonde isso tudo me leva
Nem por que a seca me bota nesta contemplação supersticiosa.
Deve ser porque as janelas estão escancaradas
E eu posso ver as árvores secando na rua enquanto tudo está mudando aqui dentro
E porque nesta época do ano sou sempre mais feliz
Pois aceito melhor quem fui e quem me tornei
E decido que não importa o que vai ser feito de mim
E porque a natureza ao redor faz do suplício sua maior virtude, sua maior beleza
E sinto eu também que como ela posso abraçar a melancolia
Florescer, ainda que a duras penas
E olhar para cima pensando que esse é o céu mais bonito que existe
Mesmo sabendo que não há céu mais bonito
Nem sofrimento mais digno
— Há apenas o sofrer.

Ou talvez eu volte a mudar de ideia amanhã.

Trecho que deixei de fora daquele cartão

Você nunca quis saber porque era complicado demais. Mas eu te obrigo a saber agora. Era 2007 quando meu pai desligou na minha cara aquela última vez. Demorei treze anos para lembrar que era dia dos pais.

— Dá os meus parabéns para o seu novo pai — foi a última coisa que ouvi dele.

O que você me cobra nunca coube em parte alguma de mim. Acho que nem pelo meu pai cheguei a sentir de verdade. Naqueles dias que passamos com ele e você se ressentiu da gente, ele me acusou de sempre ter preferido mamãe. Neguei mas era verdade. Não tinha como ser outra coisa. No dia que ele se foi eu suspirei aliviado.

Não fiz terapia bastante para desvendar esse desafeto. Sete anos era muito cedo. Talvez mudasse com o tempo. Por ora, não interessa. Nem a ele nem a você. Isso é algo que devo somente à criança que sentiu aquelas coisas.

A verdade é que nunca existiu aqui dentro o espaço que você tentou preencher. Eis o que tenho disposto a você: esta consideração e esta amizade. Isso é tudo, e no entanto não é pouco. Tomou tempo e vontade compartimentar a tal ponto as emoções.

Tenho dificuldade em abrir meu coração. Mesmo assim o abro a você. Não cobro que abra o seu de volta. Tomo o que temos pois é o máximo que pudemos ofertar um ao outro.

Não peço tampouco desculpas. Deixei de lamentar as idas e vindas do nosso entendimento. Hoje é menos por remorso que por escolha que te presto homenagem neste dia. Mas o que você não sabe é que a cada dia dos pais celebro também a dor que fere menos e menos. A dor de ser deixado para trás sem recursos para tocar adiante.

Porém segui. Bom ou mau, é nisto que me fiz. E é deste lugar falho, partido, machucado que te estendo este tanto de afeto.

Se for insuficiente, saiba que é ao menos sincero.

Diário dos sonhos pequenos #2

Um livro de minha autoria está em todas as lojas. Boa encadernação, ao que parece. Capa dura azul marinho. Meu nome em dourado na lombada. Lindo, lindo. Fico até lisonjeado. O problema é que não me lembro de jamais tê-lo escrito. Logo me bate um pânico: sou o único que ainda não o leu. Vou à livraria. Inexplicavelmente, todos os exemplares se esgotaram. Talvez seja melhor assim.

El Calafate

Picos nevados sabor baunilha
Quem diria que a estepe cheirava a lavanda e pinho
Quem diria que o vento era tão frio tão forte tão cáustico
Eu gosto do jeito que o vento bagunça a gente
Eu gosto do frio
E de me esquentar em você.

Do you speak english?
¿Cuánto por dos bicis?
¿Eso és muy longe?
Lejos! Lejos!
Perdón, nosotros não hablamos espanhol.

O português é uma língua solitária
Ser estrangeiro é mais fácil a dois.

A orla do lago
Cavalos
Pântano
Ciprestes
Aquele dia tão azul
O sol brilhando sem nos abrasar
Mente homogênea, corpo homogêneo
Y en los bolsillos nada más que tiempo.

Ainda bem que as noites nunca chegam pois eu quero que este dia dure para sempre.

Tiene la pierna rota, pobre cosa
A festa acabou, meu amor!
Sem querer diminuir o que você está sentindo mas
Um dia vamos rir disso tudo
Hasta la vista!
Don’t cry for us, Argentina!
Não é um adeus, só um até logo
Deixa que eu vou cuidar de você
Afinal quem precisa de pinguins?
E no entanto eu realmente queria ver os pinguins…

Eu não sei explicar o porquê
Mas acho que aquilo tudo nos aproximou ainda mais
Ainda bem que a vida é tão complicada
Eu gosto de me descomplicar com você.

Quem diria que eu era tão feliz.

Diário dos sonhos pequenos #1

Sou um de milhares. Multidão em marcha. Um clichê cinematográfico, você tinha que ver. Avançamos sobre um vasto planalto em meio à serra. Vento fresco à tarde morna. Meus cabelos devem estar todo bagunçados. Ao redor de nós, as ondas verdejantes do relevo são curvas macias de seios femininos, que recortam um pôr do sol plurifásico num dégradé de cores absurdamente fantásticas. Do violeta para o dourado para o turquesa para o anil. Um tipo raro de minério ancestral.

Paro, deixo que prossigam sem mim. Me projeto no muro de pedras à beira do precipício. Sei que me encontro num sonho. Não tem condição, uma beleza dessas. Meus olhos sempre tão secos até pranteiam. Quero falar — mas nada vale ser dito. A vida me comove. Na ficção do sonho, existir me parece algo digno.

Acordo sob o alento persistente dessa impressão. Só que a meia-vida dos sonhos é sempre tão curta… Logo me pesam sensações mais incômodas. A vida em muito menos matizes. Arrasto a cortina. O sol aparece amarelando o horizonte. Não tem a mesma força de um sonho. Por ora é bom o bastante.

Nu

Aqui nu frente ao espelho 
Reflito sobre a nudez 
(Reflito rápido para não ser apanhado em vergonha) 
Reflito sobre a nudez deste corpo 
Sobre a nudez de qualquer corpo 
Reflito sobre nudezes que modificam a inércia desta nudez 
E pioram a vergonha de ser apanhado 
Neste ato de reflexão.

Reflito sobre a nudez refletida 
Uma nudez neutra e boba 
Uma nudez renegada 
E um tanto nostálgica 
Que traz à tona aventuras de nudez compartilhada 
Aventuras às quais não faz jus 
Esta nudez que agora as reflete 
Nudez que é fútil, tola, ignóbil 
Estéril perante si mesma
Incapaz de despertar nudez 
No nu de quem quer que seja. 

Camada por camada, desfaço esta nudez
Disfarço sua repugnância
Como se escondidas também ficassem
Vergonhas, inseguranças e traumas
Defeitos de caráter
E angústias espirituais
Revisto esta nudez de um propósito
Dou-lhe uma personalidade
Na esperança de que conceitos vagos
E artifícios superficiais
Redimam a vulgaridade
Deste nu que o espelho desnuda. 

Evitando o reflexo insistente
De espelhos outros furtivos
Fujo mesmo do confronto
De imagens deslisonjeiras
Elaboro comigo a ilusão
De um reflexo — não, de uma miragem
Desta vez mais conveniente
Conivente com os defeitos ocultos
Condizente com esta ficção
Que eu mesmo fabulo de mim. 

E a vida passo assombrado
Pela mentira que o espelho revela
E receoso do olhar penetrante
De olhos que não se deixam enganar
Se nem a mim mesmo me iludo
Tampouco ao espelho ou ao mundo
Pois a nudez jaz exposta
Silenciosa, paciente
Aguardando quieta o momento de por inteiro amostrar-se.

Que o corpo ele mesmo é um espelho
Apenas um anteparo
No qual se projetam as pontas
Duras, feitas de aço
Dos olhos de quem o mede
E o que nele vislumbram
Não é a nudez carnal física
Antes a nudez persistente do nosso espírito frágil
Buscando em nudezes outras
O prolongamento
A completude
A extinção de um vazio na transação de pele e suor.

Paro
Dispo novamente o corpo
Fico não nu, mas pelado
E com essa irreverência
Celebro o estar desvestido.
A nudez deste corpo
Que é simples, finito, singelo
Gracioso a seu modo próprio
E sábio de seus limites
É algo de meu que é só meu:
São velhos conhecidos simpáticos
Estes pés com sindactilia
As pernas curtas graúdas
O órgão circuncidado
O tronco escolioso curvado
A barriga bojuda em excesso
Os braços e mãos preguiçosos
O pescoço curioso
A cabeça pesada de ideias
A boca rosa ansiosa
O nariz impetuoso
Os olhos pequenos doces
A testa curta sisuda
E os cabelos pretos revoltos. 

Com tudo isso por fim me retrato
À medida em que me faço inteirado
Das dores obscuras da alma
Sob o véu invisível do ego
No desnudar mais profundo
Que o coração desapercebido — só ele — pode tanger. 

Cinzas

Você compra uma agenda para botar a vida em ordem no ano da pandemia. Mas era antes da pandemia. Colocar os planos no papel é o que vai fazer as coisas funcionarem. Desta vez a vida engrena. E quase engrena. Antes de as páginas ficarem em branco. De os dias passarem em branco.

Até o começo de março, seu tempo era preenchido por compromissos e pendências. Obrigações negligenciadas da semana anterior. Consultas médicas, exames médicos. Viagens, aniversários. Tentativas interrompidas. Aquelas aulas de inglês para treinar conversação. A amizade que finalmente engataria.

Um muro pela metade com as vigas nuas expostas.

Mas a vida em si mesma continua. Acontece é que o cotidiano prevalece à rotina. Já não há mais espaço para planejamentos num mundo de eternas contingências. Não existe relógio, só o fluxo trivial das coisas. O tempo orgânico inundando o vazio da ausência de cronogramas.

Vivendo um momento de cada vez, conforme as necessidades imediatas, sinto que perco o eu em mim mesmo. A natureza finalmente vence o homem.

Resta então o problema. Aquilo que a agenda prometia solucionar. A falta de método. A incompletude amenizando sonhos em ideias. O embotamento de toda e qualquer pulsão. Energia que não gera movimento e se exaure por si só. Apetite que não é apetite, senão pura e simples fome. Ambição que nem chega a ser vontade. Simplesmente resignação. Simplesmente cansaço.

Me olho no espelho. Vejo esta vida obscura que levo. De pouquíssimas, pouquíssimas frestas. O rapaz que eu deveria ser mas que agora é só um fantasma. Borrado nas fotos, ausente das lembranças (toda ausência não documentada perde a chance de se ressignificar em saudade). Minhas memórias, eu as cultivo sozinho. Já que não posso legá-las a mais ninguém. Já que não quero legá-las a mais ninguém.

Atravesso a existência quase sem deixar rastros. Habitando sempre o mesmo não-lugar. Me esvaindo pouco a pouco. Itinerantemente. Como se desde sempre me preparasse para o dia do sumiço final.

Até minha religião pressupõe uma anulação de si mesmo — O vazio. O não-eu.

Mesmo assim você escreve. Mesmo que ninguém leia. Mesmo que não importe. E realmente não importa. Não é por isso que você escreve. Você escreve para deixar um vestígio. Escreve como quem deixa um testamento. Seu legado de si para si mesmo.

É pouco, muito pouco. E ainda assim já é algo.

Quando esta vida acabar, que não haja túmulo nem enterro. Quero que queimem meu cadáver. E queimem junto meus pertences. Apaguem todos os meus e-mails. Torrem todo o meu dinheiro. Destruam todas as provas de que andei neste planeta.

E então espalhem minhas cinzas num lugar bonito e ensolarado.

Porém — não apaguem meus textos. Não leiam nem apaguem meus textos.

Deixem meus textos em paz.

Mapa afetivo da solidão

Matheus tem vinte sete anos e digita algumas palavras no computador.

Ele não sabe aonde ir com isto, mas segue com a intuição de que, tamanho o estado de inércia em que se encontra, somente a escrita o levará adiante. Nesse momento de dúvida e (por que não) esperança, aposta todas as fichas na chance de redenção que o texto oferece. Somente a criação pode conciliar o passado ao presente, ele pensa. Acha bonito e digita.

Mas o texto não concilia coisa alguma. Força, na verdade, a colisão violenta dos fatos com as ideias dos fatos. O passado, mais do que história, é ficção, e olhar para o passado em busca dos fatos gera uma crise de identidade: o passado que criamos é produto não do que um dia fomos, mas do que nos tornamos.

Ele se sente só.

Corta para:

Adolescência

Fase de viver novas experiências, de sair do lugar de conforto. Mas para a medrosa criatura púbere que ainda tenta se adequar à própria pele, a juventude é uma busca constante pelo útero materno.

Solução: criar uma identidade adaptável, resiliente, retorcida e circunspecta, como uma árvore do cerrado, capaz de se ajustar às circunstâncias hostis e de mascarar a fragilidade do núcleo mole.

Rituais de acasalamento

A criatura é inapta ao coito por recusar-se a disputar com outros machos a predileção das fêmeas.

A seleção natural sentencia: virgindade perpétua, fim da linhagem.

Corta para:

Por que fico recapitulando tanto minha adolescência? Talvez eu tenha alimentado demais a hipótese de que meus maiores problemas começaram ali, quando racionalmente sei que não começaram. Foi bem, bem antes. Vinte e sete anos antes.

Corta para:

Nascimento

Quando a morte se aproxima, nossa mente, ainda obstruída pela ignorância e sujeita ao apego e à aversão pelo mundo de nome e forma, agarra-se aos cinco agregados (corpo, consciência, percepção, sensação, formações mentais). Com a dissolução do corpo, esse apego dá origem a uma nova consciência.

Quando percebemos, estamos nos espremendo por mais um canal vaginal.

Infância

O menino Matheus vê gente que não está ali. Certo dia vê um parente falecido que nem mesmo chegou a conhecer.

“Olha, mãe, o tio Arnaldo”, ele diz.

A mãe fica perplexa, aterrorizada, e não fala mais no assunto.

Muito tempo depois ela lhe conta em tom de anedota dessa e de outras vezes em que ele viu fantasmas. Quando ela usa essa palavra, “fantasmas”, a coisa toda perde o mistério e acaba. O menino Matheus se torna apenas Matheus e passa a ter mais medo de gente viva que de gente morta.

Adolescência

A mãe toma pequenas atitudes que obrigam Matheus a largar da barra de sua saia e começar a vil tarefa de ser gente. Com medo dessa tarefa ele entende as atitudes da mãe como uma espécie rejeição, e inicia um período de rebeldia e revolta contra a figura materna, representada por todas as mulheres do mundo.

Paternidade

Por volta da mesma época o pai de Matheus desaparece de sua vida. Mesmo rancoroso, o rapaz consegue superar o rompimento, convencido de que foi ideia sua. Uma ferida se abre. Tão funda e oculta que, sem saber onde tratar o hematoma, Matheus consegue viver uma década inteira sem se dar conta dos seus efeitos.

Corta para:

Olhando para trás, acho difícil entender como minha mãe nunca relacionou a ruptura abrupta entre mim e meu pai com o fracasso escolar que enfrentei naquele ano. Claro que nem mesmo eu fui capaz de estabelecer um paralelo entre as duas coisas. Jovem nenhum consegue explicar sua inadequação. Porém ela deveria ter enxergado as coisas mais claramente. Até hoje me ressinto dela por não ter enxergado as coisas mais claramente.

Não houve nos diálogos que tivemos sobre o assunto a seriedade adequada e justa, apenas o silêncio cauteloso perante assuntos psicologicamente densos que imperou em nossas relações familiares até que eu atingisse idade adulta. Poucas palavras foram ditas a esse respeito naquele ano. A maioria delas expressava alívio.

Meu padrasto, que então enfrentava circunstâncias profissionais desafiadoras, lutava sozinho para pertencer à nossa família. Sequer reconhecemos seu esforço. Foi com ele que estabeleci meu maior embate à época, ainda que lá em casa não houvesse pessoa menos culpada por minha infelicidade que ele. Jamais conseguimos chegar a um acordo sobre os limites de nossa relação, embora nossos interesses talvez convergissem no ponto mais crucial: ambos estávamos em busca de aprovação — ele, da nossa; eu, da de uma entidade superior, capaz de trazer fim ao meu martírio existencial.

Era 2006, ano em que virei ateu.

Corta para:

Daily commute

Viagem no tempo

Caminhando todo dia os quase dois quilômetros que formam seu percurso até o colégio, Matheus costuma fantasiar com viagem no tempo. Não são aventuras a períodos remotos da história nem viagens a dias futuros prometidos pela ficção científica que ele fabula. Sua imaginação se fixa num único e até banal cenário, no qual é capaz de reviver as mesmas experiências do ano anterior com o conhecimento e a experiência do presente.

Matheus detesta a nova cidade, a nova casa, o novo colégio. Detesta sobretudo aquilo no que acabou se moldando para sobreviver nesta outra vida em Brasília.

Os amigos são poucos, todos por conveniência. Francamente não pode contar com ninguém. O que o une a esses garotos é senão a indiferença do restante da classe e a inaptidão social. Andando com eles, teme parecer ainda mais desinteressante do que já é.

Ele gostaria de reinventar a si mesmo. Evitar os rejeitados e enturmar com o pessoal popular. Emular o comportamento dos garotos que chamam a atenção das meninas. Sentar no fundo da sala. Cabular uma aula aqui outra lá. Ser cuzão com os professores vez ou outra sem perder o carisma de bom aluno desajustado que acaba ganhando a simpatia deles. Não gaguejar pateticamente perto das garotas incapaz de pensar em algo que dizer. Em vez disso, ficar calado. Misterioso.

Se pudesse refazer seus passos, certamente escaparia dessa condição deplorável. Teria amigos e programas nos finais de semana. Iria a festas. Teria o que mentir para sua mãe quando chegasse em casa depois do horário combinado. Hoje não tem o que mentir. Não há um passo que dê que escape à ciência e ao controle da mãe.

Quão humilhante é ter uma adolescência assim tão transparente?

Matheus sonha em voltar no passado e aniquilar todas as escolhas erradas que o tornaram esse jovem invisível e tedioso.

Foda-se. No fundo sabe que essa é uma fantasia fútil, ingênua, embora sem ela seja incapaz de ir ao colégio e frequentar as aulas. Idealizar uma vida menos solitária é o único antidoto contra a ridícula realidade do seu cotidiano. É a única coisa que o impede de pular do Pátio Brasil?

Exagero. Matheus não pensa de verdade em se matar. Ele não quer morrer. Matheus tem ânsia de viver. Ânsia de viver ao máximo, de viver plenamente, viver pra caralho. De ser alguém, ser enxergado, ser notado, ser querido. Tornar-se um rapaz comum, passar pelas tormentas amorosas e problemas adolescentes que todos passam.

Matheus quer sofrer uma adolescência normal. Mas as habilidades sociais para isso ele não tem.

No ano seguinte mudará de colégio e terá outro recomeço. Acabará percebendo que é muito mais difícil escapar do isolamento e da solidão do que imaginava. Está entranhado em sua carne e em seu espírito. Faz parte de sua essência.

Corta para:

Quase sinto pena de mim mesmo ao ler essas coisas que escrevi. Arranjados assim os fatos parecem convergir para um destino inexorável de que fui vítima desde muito cedo. Um destino que inevitavelmente me conduziria a uma existência despedaçada e infeliz. Não foi como as coisas aconteceram.

Sou feliz. Encontrei uma companheira amorosa. De alguma forma me tornei um adulto relativamente maduro e razoável. Quatro anos atrás entrei numa jornada de autoconhecimento que botou minha vida do avesso. Encontrei aos vinte e três algo que me faltava aos treze.

Nada disso aniquilou aquela dor. A solidão não pode ser apaziguada pelas alegrias de uma vida saudável e positiva. Escrevi sobre essas coisas no ano retrasado.

Corta para:

Caderno azul que Letícia me deu

1 de fevereiro de 2018. Matheus escreveu:

“Pouco frequento meus amigos. Ultimamente, contudo, tenho aprendido a frequentar a mim mesmo. Falo não apenas deste corpo, mas sobretudo desta mente. Falo de centrá-la neste instante, nesta existência, em si mesma. A reconhecer os limites geográficos e conceituais das coisas. Isso tem me ensinado muito sobre estar só, sobre sentir-se só, sobre reapropriar-se dessa solidão e de usá-la como ferramenta, como método. Sobre reconciliar-se com todas essas questões, redescobrir-se para além delas. Porque se sou, de fato, sozinho, sou também vocacionado à solidão.”

Incompreendido

I’d like to thank you all for nothing
I’d like to thank you all for nothing at all
I’d like to thank you all for nothing
Nothing, nothing, nothing, nothing
Nothing at all
Nothing, nothing, nothing
Nothing at all

Matheus se encolhe cada vez mais na solidão, na esquisitice e no rancor

Eu não saio de casa, não vejo o dia lá fora. Eu não posto fotos. Eu não tiro fotos. Não escrevo textos no Facebook. Eu não convido meus amigos para tomar uma cerveja, não conto a eles dos meus problemas e nem das minhas conquistas. Não compartilho com ninguém a mediocridade desta introjetada existência. Eu sequer tenho amigos. Não tenho ninguém. Eu sou apenas eu. Mundo eu. Mundo só. Mundo vácuo.

Sinto uma solidão pungente ardendo no peito. O travesseiro é uma rocha. Um dia não é muito diferente do outro. Um de cada vez, eu posso suportá-los. Um passo de cada vez. Uma hora de cada vez. Sozinho.

Corta para:

Não acredito na essência do ser humano. Somos um compilado de fabricações momentâneas, depositadas camada sobre camada através dos anos. Nos apegamos a esse amontoado que chamamos ego e acreditamos que nossa insistência tenaz nos mesmos hábitos, nosso apego tacanho a ideias repetidas constituem nossa essência. Mas a essência não existe. A reincidência cega de padrões e costumes, aos quais nos afeiçoamos, nos quais depositamos toda a nossa crença e expectativa de uma consistência, de uma identidade, é tudo que resta por trás do véu da existência humana. E o que moldou essa identidade, para mim, foi a solidão. A solidão deu unidade aos episódios que traçaram meu caminho até aqui. Fui, sou e talvez morra sendo uma pessoa sozinha e solitária. 

Que há mal nisso?

Corta para:

Sorte no amor

Não tive mulheres como Martinho. Meus poucos encontros amorosos marcaram lições duras e definitivas. Tive amores ausentes de corpo e corpos ausentes de amor. Tive amores ausentes de esperança. Tive esperanças ausentes de possibilidade. Tive possibilidade ausente de vontade.

Finalmente encontrei possibilidade e vontade presentes no mesmo corpo. Um lugar aonde pertencer. Em meio a tanto amor, talvez eu não esteja mais sozinho. Nunca mais. Mesmo que para sempre eu carregue esta solidão. Mesmo que eu nunca seja feliz de verdade.

Corta para:

Acordo com meu próprio ronco. É cedo mas não clareou dia. Letícia dorme, os gatos dormem. Nem deus levantou ainda.

O teto branco com infiltrações. Milhares de insetos mortos servidos no prato da luminária. Fome. Levanto e vou comer.

Os gatos acordam e vêm mendigar atenção antes que eu tenha chance de me fechar no quarto. Afeto que transcende barreiras naturais. Impronunciável. O que é a linguagem, senão uma tentativa vã de estar em contato.

Sento-me em silêncio por uma hora. Presença que corta profundamente na carne. A carne, gênese da mente.

Apenas estar.

Isolar-se é um hábito. Isolar-se da dor. Isolar o prazer na tentativa de eternizá-lo. Isolar-se para estar consciente da finitude de si próprio. Isolar-se de si para dar cabo à rotina.

O sofrer é solitário. Todos sofrem. Todos estão sós.

Solidão: presença. Presença demais.

O passado, esse já é uma mentira que eu mesmo fabulo. O segredo do presente não está na memória nem na ação. Está na inação, na ausência.

Felicidade. Felicidade não é o fim da solidão. Felicidade é aceitá-la de vez.

Retirar-se. Não estar.

Só. Mais só do que a própria solidão.

Ponho um ponto final e desligo o computador. O texto não traz redenção.

No fim das contas, estar só não é tão mal assim.